Por que é possível amar profundamente seus filhos e, ao mesmo tempo, sentir cansaço, irritação, frustração e saudade de si mesma?

Existe uma parte da maternidade sobre a qual ainda falamos pouco. Uma parte que nem sempre aparece nas fotografias, nas conversas entre amigas ou nos relatos sobre a chegada dos filhos.

É aquela em que o amor convive com sentimentos difíceis de compreender e, principalmente, de admitir.

Você ama seu filho profundamente, mas há dias em que gostaria de não ser chamada por ninguém. Sente saudade quando está longe, mas também deseja ter algumas horas em que não precise ser responsável por tudo. Quer acompanhar cada etapa do crescimento dos filhos, mas sente falta da liberdade e da espontaneidade que faziam parte da sua vida antes deles.

Há momentos em que você se sente realizada na maternidade. Em outros, questiona suas escolhas, sente falta da mulher que era ou se pergunta quando conseguirá voltar a olhar para os próprios desejos.

E, quase sempre, depois desses pensamentos, vem a culpa.

Culpa por desejar silêncio. Por querer trabalhar. Por querer ficar em casa. Por perder a paciência. Por sentir falta da própria vida, mesmo amando tanto a vida que construiu.

Como é possível amar tanto e, ainda assim, desejar que algumas coisas fossem diferentes?

Essa pergunta atravessa a experiência de muitas mulheres que encontro na minha prática clínica. E ela nos leva a compreender um aspecto fundamental da saúde mental materna: a ambivalência emocional.


A ambivalência materna: quando sentimentos diferentes coexistem

Na Psicologia, chamamos de ambivalência a possibilidade de experimentar sentimentos diferentes, até mesmo opostos, em relação à mesma pessoa ou experiência.

Na maternidade, isso significa compreender que o amor por um filho não elimina o cansaço, a frustração, a raiva ou o desejo de ter uma vida que também pertença a você.

O amor e a irritação podem existir na mesma relação. Assim como a alegria pela maternidade e o luto por aspectos da vida que ficaram para trás.

E não estou falando apenas da mulher que acabou de se tornar mãe.

Essa ambivalência pode reaparecer em diferentes momentos: quando termina a licença-maternidade, quando chega o segundo filho, quando as crianças começam a conquistar autonomia, quando a carreira exige novas decisões ou quando os filhos crescem e a mulher percebe o quanto de si ficou adormecido ao longo dos anos.

A maternidade não transforma apenas a relação da mulher com os filhos. Ela também transforma a relação que essa mulher estabelece consigo mesma, com seu corpo, com seu tempo, com seus desejos e com as pessoas que fazem parte da sua vida.

E essas transformações nem sempre acontecem de maneira harmoniosa.

Algumas despertam alegria e realização. Outras exigem renúncias, adaptações e encontros com aspectos da própria história emocional que até então permaneciam pouco conhecidos.

É por isso que costumo dizer que a questão não é apenas a maternidade em si, mas também aquilo que ela revela sobre a mulher que a vive.


Por que sentimos tanta culpa?

Ao longo da vida, muitas mulheres aprenderam que amar é estar disponível. Que cuidar significa antecipar as necessidades do outro. Que ser uma boa mãe exige paciência, dedicação e uma capacidade quase inesgotável de colocar os filhos em primeiro lugar.

Essas expectativas, que também são construídas social e culturalmente, vão formando uma imagem idealizada da mulher que deveríamos ser.

Uma mãe que consegue equilibrar tudo. Que não perde a paciência. Que está presente em todos os momentos importantes. Que trabalha, cuida da casa, acompanha os filhos e ainda encontra disposição para manter todas as outras áreas da vida funcionando.

Mas o que acontece quando a mulher real não corresponde a essa imagem?

Ela começa a interpretar suas dificuldades como falhas pessoais.

Se está cansada, acredita que deveria ser mais forte. Se perde a paciência, pensa que não é uma boa mãe. Se deseja fazer algo sozinha, sente que está sendo egoísta.

A culpa, então, passa a ocupar o espaço que poderia ser destinado à compreensão dos próprios sentimentos.

E existe algo especialmente importante nessa dinâmica: sentir uma emoção não é o mesmo que desejar agir a partir dela.

Sentir raiva do comportamento de um filho não significa deixar de amá-lo. Desejar ficar sozinha não significa rejeitar a maternidade. Sentir saudade da vida anterior não significa se arrepender de ter filhos.

Quando não conseguimos fazer essa diferenciação, começamos a julgar nossas emoções antes mesmo de compreendê-las.

E, aos poucos, vamos nos afastando de nós mesmas.


O que a maternidade desperta da nossa própria história?

Há ainda uma dimensão mais profunda dessa experiência.

A maternidade frequentemente nos coloca em contato com a nossa própria infância, com a maneira como fomos cuidadas, com os modelos femininos que conhecemos e com aquilo que aprendemos sobre amor, dedicação, limites e reconhecimento.

Uma mulher que cresceu acreditando que precisava agradar para ser amada pode encontrar grandes dificuldades para estabelecer limites depois de se tornar mãe.

Outra, que aprendeu a ser forte e resolver tudo sozinha, pode sentir uma enorme resistência em pedir ajuda, mesmo quando está profundamente sobrecarregada.

Há também aquela que construiu sua identidade em torno da competência e da realização profissional e que, diante da imprevisibilidade da maternidade, passa a sentir que perdeu o controle sobre a própria vida.

São histórias diferentes, mas que revelam algo em comum: não chegamos à maternidade emocionalmente vazias.

Chegamos com tudo aquilo que vivemos, aprendemos, desejamos, tememos e ainda precisamos compreender sobre nós mesmas.

E é justamente por isso que determinadas situações cotidianas podem despertar emoções tão intensas.

Às vezes, a irritação diante de uma demanda do filho não diz respeito apenas àquela situação. Pode também estar relacionada a um acúmulo de responsabilidades, à dificuldade de dizer não, à falta de apoio ou à sensação de que ninguém percebe as necessidades daquela mulher.

Compreender isso não significa justificar qualquer comportamento. Significa criar condições para reconhecer as emoções, cuidar delas e encontrar maneiras mais conscientes de responder às situações.


Você pode ser mãe sem deixar de ser quem é

Uma das questões que mais observo no atendimento de mulheres-mães é a dificuldade de reconhecer as próprias necessidades como legítimas.

Elas conseguem identificar com clareza aquilo de que os filhos precisam. Sabem o que precisa ser resolvido no trabalho, na casa, na escola, no relacionamento.

Mas, quando pergunto sobre o que desejam para si, muitas encontram dificuldade para responder.

Não porque deixaram de ter desejos, mas porque passaram tanto tempo atendendo às demandas externas que perderam a familiaridade com a própria voz.

E, quando começam a olhar novamente para si, frequentemente encontram a culpa.

A culpa por desejar mudanças. Por querer retomar a carreira. Por precisar de descanso. Por querer sair com amigas, viajar, estudar, dançar, descobrir novos interesses ou simplesmente ter algum tempo em que não precisem cuidar de ninguém.

É importante compreender que a maternidade passa a fazer parte da identidade de uma mulher, mas não precisa ocupar toda a sua identidade.

Você continua sendo uma pessoa com necessidades emocionais, desejos, limites, projetos e uma história que não começou com o nascimento dos seus filhos.

E reconhecer isso não diminui a importância da maternidade na sua vida.

Você não precisa escolher entre amar seus filhos e cuidar de quem você é. Precisa construir uma vida em que exista espaço para ambos.

Esse é um processo que envolve escolhas, reorganização da rotina, revisão de expectativas, construção de limites e, muitas vezes, uma nova maneira de se relacionar consigo mesma.

Não acontece de uma hora para outra. E nem sempre é possível fazer esse caminho sozinha.


Quando a psicoterapia abre espaço para a mulher se reconhecer

Existe uma diferença importante entre reconhecer que estamos vivendo uma dificuldade e compreender o que está por trás dela.

Muitas mulheres chegam à psicoterapia falando sobre irritabilidade, culpa, ansiedade, exaustão ou conflitos familiares.

Mas, à medida que encontram espaço para falar de si, começam a perceber que essas manifestações também podem estar relacionadas a questões mais profundas: a dificuldade de reconhecer os próprios limites, o medo de decepcionar, a necessidade de controle, a autocobrança ou a sensação de terem perdido o contato com a própria identidade.

É nesse espaço de escuta que podemos começar a compreender o significado dessas experiências.

Na psicoterapia, não buscamos eliminar os sentimentos difíceis que fazem parte da vida. Buscamos ampliar a capacidade de reconhecê-los, compreender sua origem e construir novas possibilidades de lidar com eles.

Porque a culpa nem sempre desaparece quando a mulher faz mais, se dedica mais ou tenta acertar o tempo todo.

Em muitos casos, ela começa a perder força quando essa mulher compreende por que exige tanto de si mesma e passa a se relacionar com suas necessidades de outra maneira.

É um caminho de autoconhecimento, consciência e transformação.

Um caminho que permite integrar os diferentes aspectos da vida, sem precisar abandonar a mulher para viver a maternidade.


Um primeiro encontro com você mesma

Se, durante a leitura, você se reconheceu em algumas dessas experiências, gostaria de te convidar a olhar para elas com mais atenção.

Como você tem se sentido na maternidade?

Quanto espaço existe hoje para seus desejos, suas necessidades e seus projetos?

O que você tem deixado para depois?

E, principalmente, o que esses sentimentos podem estar tentando te comunicar sobre a vida que você está vivendo?

Essas são algumas das questões que podemos começar a explorar juntas.

Na minha Sessão de Acolhimento, você encontra um espaço de escuta psicológica, sem julgamentos, para falar sobre o momento que está vivendo, compreender melhor suas emoções e começar a identificar caminhos possíveis de cuidado.

É um encontro individual, de aproximadamente 60 minutos, no qual podemos olhar para as dificuldades que estão presentes na sua vida e compreender quais próximos passos fazem sentido para você — incluindo, quando indicado, a continuidade de um acompanhamento psicoterapêutico.

Você não precisa chegar com todas as respostas, nem saber exatamente o que precisa mudar.

Podemos começar pelo que você sente hoje.

Porque ser inteira não significa dar conta de tudo ou estar bem o tempo todo. Significa poder reconhecer, acolher e integrar as diferentes partes de quem você é.

E a mulher que existe para além da mãe também merece ser escutada.

Se você deseja começar esse processo, agende sua Sessão de Acolhimento comigo. Será um prazer te receber.

Katherine Sorroche
Psicóloga da Mulher-Mãe | CRP 06/76400
Psicoterapia, saúde mental da mulher e maternidade.